Riscos psicossociais à saúde mental na Universidade (1)


Aprendendo a se defender das armadilhas que surgem para quem estuda ou trabalha em Universidades.


Segundo a Pesquisa do Perfil Socioeconômico dos Estudantes de Graduação (2014/2016) realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), 80% dos estudantes já tiveram problemas emocionais, 60% sofrem de ansiedade e 70% nunca procuraram atendimento psicológico. Insônia, pânico, desespero, tristeza, ideação suicida são alguns dos sintomas e sentimentos experimentados durante a passagem pela Universidade [vide Nota 01].


BRITO, Débora. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades. [On-line] Agência Brasil. Publicado em 08 ago. 2018. {Link}


Tenha acesso à pesquisa mais atual da ANDIFES sobre o perfil estudantil universitário.


Mas o que será que ocorre dentro dessa instituição secular, que de alguma forma não dá conta de acolher os estudantes e ainda parece ser geradora de fatores estressantes? Seria um efeito sentido apenas pelo alunado, ou técnicos e professores também estariam submetidos à mesma dinâmica?


Para responder a essa e outras questões propusemos um momento de reflexão junto ao Núcleo de Cuidado Humano da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) [vide Nota 02], que mobilizou campanha alusiva ao Janeiro Branco. O momento constituiu-se de uma breve palestra e uma oficina de constelação sistêmica, no dia 29 de janeiro de 2020 [Galeria de fotos no final da página].


Baixe aqui os slides da apresentação em formato PDF.



O tema é delicado e urgente, não estamos falando apenas de pessoas com inadequação ao meio, estamos falando de pessoas entre moderadamente até severamente adoecidas, sequeladas de forma profunda e com algumas notificações de casos de suicídio. Da própria UFRPE, partiu uma iniciativa interessante do aluno Mário Emmanuel do curso de História, o qual produziu em 2018, um documentário intitulado “Saúde Emocional na Universidade: Viver não cabe no Lattes[vide Nota 03]. O canal Zoe Integrativa no YouTube selecionou outros vídeos para você que queira saber mais sobre as manifestações das próprias pessoas envolvidas nesse enredo que liga a vivência na Universidade e as condições de saúde mental (Clique aqui para acessa a PlayList).


RAMOS, Mário Emmanuel O. “Saúde Emocional na Universidade: Viver não cabe no Lattes” [Audiovisual] Duração: 12min 06seg. Publicado em 04 dez. 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8Sj_2EDFk8U>.



Os fundamentos da terapia organizacional


O facilitador desse momento de reflexão foi o colaborador da Zoe Integrativa, Wagner Soares de Lima, que trabalha com uma abordagem denominada de Ecologia Organizacional Clínica, definida como uma proposta terapêutica dos sistemas sociais humanos, vistos tais como metaorganismos vivos. Quando pessoas adoecem em massa dentro de uma organização, quer seja aquela onde se trabalha, quer seja outra em que se tem um diferente tipo de vínculo, é provável que não apenas vulnerabilidades individuais apresentem-se como fatores predisponentes, é questionável se a própria dinâmica institucional não tem formado um contexto de adoecimento. E se assim for, então, é a organização que está doente, ou poderíamos dizer em estado de disfuncionalidade.


É comum para organizações que replicam modelos institucionais muito antigos desenvolverem padrões “neuróticos” de comportamento coletivo, ou seja, as pessoas são induzidas a práticas de defesa involuntária do modo de ser tradicional daquela instituição, evitando as necessárias mudanças de atendimento às novas situações demandadas pela dinâmica social externa, sobretudo, aquelas demandas provenientes pelo advento de novas gerações [vide Nota 04]. Esse cenário de resistência institucional aos novos tempos e a uma nova forma de funcionamento costuma ser mais enraizado em instituições seculares e esse é o caso da Universidade. Apesar da instituição universitária se apresentar sob a proposta de vanguarda e uma possível catalisadora para renovação dos quadros profissionais, bem como, do conjunto de valores e ideias que circulam na sociedade; a Universidade também carrega em si uma herança que remonta a elementos históricos dos séculos V ao XIII.


Segundo a Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho [vide Nota 05], deficiências na concepção, organização e gestão do trabalho, bem como de um contexto social de trabalho problemático podem ter efeitos negativos a nível psicológico, físico e social tais como stress relacionado com o trabalho, esgotamento ou depressão. Tais deficiências são os fatores que geram os riscos psicossociais. Portanto, como a organização está estruturada e como ela envolve o trabalhador em sua dinâmica pode ser decisivo para que as condições de saúde do indivíduo sejam afetadas. Nas instituições de ensino, ocorre um fenômeno adicional, que acaba por incluir os estudantes. Nas escolas e universidades o cidadão-usuário ou o cliente do serviço prestado, passa por um processo de admissão, no qual mesmo sendo ele o público a ser atendido, ele passa a integrar a organização, ainda que temporariamente. Nesse sentido, o estudante acaba por ser submetido aos mesmos aspectos próprios do “DNA institucional”.


Os três segmentos da comunidade acadêmica: professores, técnicos e estudantes são envolvidos por uma dinâmica que pode se constituir em armadilhas psicoemocionais.

Um padrão marcante de relacionamento pessoa-organização que tende ao desenvolvimento de adoecimento psíquico e psicossomático é a frustração em relação às expectativas geradas. Percebem-se estudantes buscando um tipo de apoio semelhante àquele típico ao de família e o que encontram é uma cobrança muito acirrada por produção e enquadramento. Já entre os técnicos há um vislumbre pelo mundo acadêmico dos estudos, mas o que encontram é um ambiente de emprego comum. Essa dissonância entre o que se espera e o que realmente lhe é oportunizado estabelece-se como a quebra de um contrato informal feito entre a pessoa e a organização, o qual é chamado de “contrato psicológico”.





Segundo o psicólogo organizacional Edgar Schein, “a idéia de um contrato psicológico denota que há um conjunto não explícito de expectativas atuando em todos os momentos entre todos os membros de uma organização e os diversos dirigentes e outras pessoas dessa organização”.


O teórico organizacional Chris Argyris complementa essa definição, dizendo que “em última análise, a relação entre o indivíduo e a organização é interativa, desenvolvendo-se através da influência mútua e da negociação mútua para estabelecer um contrato psicológico viável[vide Nota 06].


A quebra desse contrato pode surgir quando há um desequilíbrio entre “o que sua instituição quer de você” e “o que você está disposto a oferecer a ela”. E isso, provavelmente, dependa do ela tem a retribuir a você. Não se engane, o discurso institucional proferido por meio da comunicação social não é capaz de desvelar os elementos profundos da cultura organizacional.


Organizações que seguem modelos institucionais muito antigos, como é o caso da Universidade, possuem elementos que foram testados pelo tempo em robustez e resiliência, ou seja, são “duros na queda”. Esses elementos culturais internos são atributos que especificam padrões de funcionamento que não vão ceder facilmente apenas porque um grupo de novos integrantes assim o desejam.



Próximas postagens da série


Convidamos a você para nos acompanhar nessa viagem que vai te levar ao profundo da cultura institucional da Universidade, desde os seus fundamentos históricos até o formato contemporâneo, com maior ênfase ao contexto brasileiro e um pouco sobre a história e a simbologia arquetípica suscitada pelas duas Universidades Federais da capital de Pernambuco: a UFPE e a UFRPE. É uma abordagem pouco usual, mas consiste em suma, traçar os elementos da Ecologia Mental, com finalidade de identificar e tratar os problemas organizacionais, que por rebatimento atingem em cheio as pessoas que fazem parte das partes interessadas (stakeholders), a saber, estudantes, técnicos e docentes.


Falamos nesta postagem de alguns elementos gerais que perpassam todo tipo de organização, mas queremos trazer a você, um apanhado sobre as condições específicas da Universidade. Para isso, foi preciso formar uma série de postagens cada uma com uma parte do conteúdo.


Tabela de Conteúdo da série: “RISCOS PSICOSSOCIAIS À SAÚDE MENTAL NA UNIVERSIDADE”:


1. Introdução ao problema e Fundamentos da Terapia Organizacional.


2. Indentificando algumas armadilhas próprias dos riscos psicossociais da experiência universitária (Próxima postagem).



Galeria de Fotos

Palestra e dinâmica sistêmica, 29.01.2020, UFRPE, Recife.





Notas e Referências


[01] BRITO, Débora. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades. [On-line] Agência Brasil. Publicado em 08 ago. 2018. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-08/casos-de-suicidio-motivam-debate-sobre-saude-mental-nas-universidades>.


[02] ASCOM/UFRPE. Núcleo do Cuidado finaliza campanha Janeiro Branco [On-line]. Publicado em 30 jan. 2020. Disponível em: <http://www.ufrpe.br/br/content/n%C3%BAcleo-do-cuidado-finaliza-campanha-janeiro-branco>.


[03] RAMOS, Mário Emmanuel O. “Saúde Emocional na Universidade: Viver não cabe no Lattes” [Audiovisual] Duração: 12min 06seg. Publicado em 04 dez. 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8Sj_2EDFk8U>.


Descrição do vídeo: "Viver Não cabe no Lattes", é documentário produzido em 2018, pelo estudante Mário Emmanuel. Tentando mostrar a realidade dos estudantes, que por muito tempo foram silenciados. Mostrando esse sofrimento que atinge a grande maioria dos universitários, os problemas emocionais.


[04] É possível encontrar noções sobre “patologias organizacionais” em Bergamini, Cecília W. Psicologia Aplicada à Administração de Empresas: Psicologia do Comportamento Organizacional. 5ª edição.

Editora GEN/Atlas, 2015.


[05] Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho (EU-OSHA). Riscos psicossociais e stresse no trabalho. [On-line]. Disponível em: <https://osha.europa.eu/pt/themes/psychosocial-risks-and-stress>.


[06] SCHEIN, Edgar H. Organizational Psychology. 3rd ed. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1980.




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