Blog Zoe Integrativa

Precisamos reconhecer o conteúdo de nossa Sombra



Certa vez começaram uma conversa com o mestre Jesus dizendo: “Bom mestre...”. Ele imediatamente corrigiu: “bom não, bom somente Deus, eu não sou bom”. Porque não se admitir bom!? E você, é uma pessoa boa?


Um dos passos mais marcantes para o amuderecimento é finalmente admitir que você é ruim também e que tem tanto pensamentos bons como maus, assim como tem condutas más e boas. Você não é bonzinho o tempo todo e, quando você compra essa ilusão, há uma grande chance de seu lado mau surgir sem que você possa identifica-lo e isso pode ocorrer totalmente fora do seu controle.


Algumas pessoas leem meus textos que falam de amor e compreensão, mas não devem se iludir: eu sou tão chato quanto possa parecer que eu seja uma pessoa formidável. E isso ocorre comigo e com todos nós. E o que devemos fazer com isso? A principio, nada. Simplesmente reconhecer sua própria maldade já é o bastante. Mas só a principio, depois é preciso com muita paciência e persistência remodelar sua dinâmica interna para que essas forças pujantes do seu psiquismo interior possam ser reificadas, ou que sua energia possa ser redirecionada para outros fins. Aqui estamos tratando de sistemas naturais e como você já deve ter ouvido falar a frase de Lavoisier: “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Então, essas forças já estavam lá e você depois de acessá-las, não pode simplesmente apagar com a borracha, são indestrutíveis, é preciso redirecionar, aprender a conviver com elas.


A partir dos ensinamentos da mentora Joana de Ângelis (mais conhecida como Santa Clara de Assis, a companheira de missão de São Francisco), em meio a uma reavaliação dos estudos de Carl Gustav Jung, podemos elencar quatro emoções ou sentimentos base que são inerentes aos seres humanos, devido sua evolução biológica em estágios: reptilianos, mamíferos, primatas e hominídeos. Isso conferiu ao nosso sistema nervoso (sobretudo, o central: no cérebro) uma formação também em estágios. Das camadas inferiores, as que foram formadas primeiras, surgem reações ao ambiente que nos são inerentes como espécie e dificilmente tenhamos como escapar delas na atual fase de evolução tecnológica e na dimensão ético-moral.





Portanto, não podendo escapar, convivemos com as reações instintivas, que resultam em sentimentos como o medo, a raiva, a inveja e a culpa. Veja como cada uma dessas quatro dinâmicas psíquicas é própria de etapas diferentes da evolução e como cada uma delas ou em associação são capazes de arrastar nossas vidas para condições bastante desagradáveis. Mas elas são nossas, muitas vezes se conectam ao que vivemos na infância, em várias oportunidades suscitam memórias dos nossos antepassados ou de nossas próprias vidas passadas. Não é fácil desvencilhar-se delas e existe um efeito paradoxal estranho: quanto mais eu tento fugir delas, negando que as tenho ou que as sinto, mais elas vão para debaixo do tapete e lá se acumulam e depois voltam com força total.


Ao invés de negá-las, podemos tentar aprender a conviver com elas. Cada uma tem até certo ponto um fator positivo: o medo nos ajuda a não se colocar em riscos desnecessários e ao encontrar o perigo dar uma pausa para se preparar antes de encará-lo. Ou seja, não se espera que não se tenha medo, apenas que aprenda a pesar de tê-lo, enfrentar os desafios.


A raiva é uma força mobilizadora própria do mundo dos instintos, como ainda não somos totalmente libertos do nosso jeito animal e assim vamos ficar ainda por muito tempo, então os seres humanos podem converter a raiva, ou a indignação quanto a algo mal resolvido em força para agir e para lutar. A inveja foi um importante mecanismo quando não sabíamos o que era necessário para sobreviver, apenas sabíamos por instinto que se o outro tem e está bem e feliz, então também precisamos ter. A inveja se torna corrosiva quando ficamos felizes quando, por não termos, o outro também não pode ter.


E a culpa é aquela mais típica dos estágios “mais humanos” do processo de evolução. Ela é um bom sinal de que estamos começando a aprender sobre as consequências de nossos atos. Para animais aprendendo a ser humanos, foi um ótimo recurso para nos obrigar a corrigir os erros, mas a culpa está nos matando por dentro. Nossos sistemas sociais e culturais estão nos fazendo ter culpa de coisas que não são mais relevantes para nossa evolução, fazendo com que fiquemos estagnados com questões, que em algum dia do nosso passado histórico até fizeram sentido de ser, mas não são mais oportunos.


Veja como cada um dessas dinâmicas tiveram sua razão de existir e sua persistência em nós se dá porque ainda no que é resquício da evolução animal essas coisas ainda nos são necessárias. Mas não devem mais nos dominar. Se esses conteúdos típicos da nossa Sombra nos dominam e abraçamo-nos como se fossem o que realmente somos, há um grande risco do Mal se tornar algo bem concreto e acabar permeando tudo sem o devido e saudável equilíbrio com o que nos eleva em dignidade.


Mas lembre-se, o Mal é ainda mais perigoso, quando ele emerge numa condição descontrolada do acúmulo do que foi jogado par debaixo do tapete. É quando, justamente, achamos que somos bons, os certinhos, os perfeitos, que todas as possíveis defesas para contrabalançar a maldade ficam desarmadas. Porque quando nos julgamos bons, a maldade virá disfarçada de coisa boa que é como nos vemos e como unicamente nos admitimos. A raiva da vingança virá disfarçada de justiça. A inveja virá disfarçada de necessidade de proteger o grupo contra perigos estranhos ou virá como um desejo por unificação e uniformização que poderá levar o nome de igualdade, só que forçada. A culpa virá por dentro do projeto de querer salvar, aquilo que não precisa ser verdadeiramente salvo a não ser de você mesmo. E o medo poderá ganhar a forma de preconceito justificável.





Vamos fazer um trato: nada de ser bonzinho, cada um sabe a maldade que tem, se não sabe, trate de saber. Para quê? Para poder dar conta dela, pois se fingir que ela não está aí, ela vai agir livremente sem nem você perceber. E se for impossível não ver a Sombra, mas não posso admitir ver em mim mesmo, então vou vê-la como um fantasma que insiste em aparecer nos outros. Quanto mais maldade consigo apontar nas outras pessoas, mais devo me preocupar se esses mesmos conteúdos não estão, na verdade, dentro de nós mesmos.


Quer ver como é fácil, para começar um bom tratamento socioafetivo? Quer ver como rapidamente, as pessoas ao redor passam incomodar menos? Observe tudo o que você ver de ruim nelas com mais força, pare e reflita: onde aquilo também está em você? Lembre-se das vezes que você deixou coisa parecida escapar sem controlar. Se coloque no lugar dos outros em relação a você mesmo. Se você estivesse no lugar deles, também não diria que você mesmo carrega ou age com aquela maldade que você julga ser do outro?


Creio que vamos precisa falar um pouco mais sobre a Sombra. Até lá quero indicar vídeo e leitura, espero que gostem.


Wagner Soares de Lima, janeiro de 2021.







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