Quando o amor faz mal e te transforma em alguém que você não reconhece mais


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Esse é um filme que se repete e o roteiro é o seguinte: “eu pensei que era você, eu entreguei a chaves do meu coração. E você o que fez? Brincou, zombou e eu ainda ficava aqui esperando algo mudar”. Às vezes, a prisão que nos segura numa história que não tem futuro e que insiste em nos quebrar por dentro, pode não ser por uma coisa ruim, mas uma coisa boa.


Estamos continuando nossa série “Precisei te perder, para poder me encontrar” e dessa vez a Terapia com Música vai refletir sobre a letra da música “How do you sleep?”, interpretada pelo cantor britânico Sam Smith. Vamos usar uma versão de tradução livre que tenta capturar o sentido geral da música no contexto da dependência emocional e a influência dos laços afetivos com seu pai e sua mãe nas escolhas, ainda que inconscientes, da sua vida adulta. Como meio didático para explicar como podem ocorrer esses processos de entrega a um projeto de vida e uma ruptura por mudança de planos pela outra pessoa, vamos usar a letra da música de John Lennon que tem o mesmo título: “Como você consegue dormir em paz?”.


♫ “How do you sleep” | Sam Smith (Tradução livre para o português)

Eu estou cansado de me odiar por tudo o que sinto Chega de chorar a noite toda Eu preciso me afastar para poder me curar ... Quem sou eu, que não me reconheço mais.

Antes de irmos para o restante da letra dessa fabulosa música, que pode até lhe fazer chorar de tão verdadeira que é, quero lhe explicar primeiramente o contexto do que vamos falar.



Eu vivo só para ele e quero ele só para mim


Se você se permitir, por favor, imagine-se comendo aquilo que você mais gosta, aquele prato, um doce, aquela comida que você mais aprecia. Agora vamos imaginar que todo dia lhe seja oferecido o seu prato preferido e outra opção. Diante de você duas opções, digamos que aquele outro prato fosse algum que você já conhecesse. Muito provavelmente você tenderia a optar pelo prato que você mais gosta, tendo em vista que já sabe qual é o melhor. Se em algum dia desses, quando fosse percebido que você estivesse perto de escolher a opção diferente da preferida, até mesmo para variar, as opções já conhecidas lhe seriam tiradas. E todo dia agora lhe seria oferecido seu prato preferido e um prato novo encoberto.


Meu Deus!? Nessa brincadeira já faz um tempão que você só come o seu prato preferido, só sente o cheiro dele, só sabe comer, se for o seu prato preferido. Isso já está lhe dando dor de barriga, mas nada mais importa. Ele até perdeu um pouco a graça, mas não vale arriscar perdê-lo, certo? Errado, o nome disso é dependência. Vamos mudar do prato preferido para a pessoa que te fez suspirar e ir no céu. Aquela pessoa por quem, um dia, você foi apaixonada. Alguns vão chamar isso da bela fase pacífica do amor e pode ser mesmo, se você não estiver se acabando por isso. Se, apesar de algumas dores, você estiver sustentando e na balança entre pontos positivos e negativos está valendo a pena, então tudo bem.


Agora, se estamos falando de um jogo, onde você só perde e, enquanto, você está aprisionado nisso, a outra pessoa vive mais livre e despreocupada, não vai adiantar você querer que ela seja puxada para a mesma prisão sua. É você que vai ter que se libertar. Se vocês dois estão na mesma prisão, pode ser que um precise do outro para consegui saírem juntos dela. Comer sempre o mesmo prato, não quer dizer fazer sexo com mesma pessoa sempre, essa não é a questão principal. Para alguns isso pode até ser parte do problema, porque realmente existem pessoas que naturalmente fazem sexo com mais de um parceiro, mas essa é uma outra situação, um pouco mais complexa.


Se você está passando por problemas desse tema que estamos falando, então, é provável que o fato da outra pessoa está fazendo sexo com terceiros, mesmo tendo compromisso com você lhe perturbe muito. E nem passe pela sua mente fazer igual de coração limpo, se fizesse seria por vingança, uma forma de diminuir a dor da traição. O que você quer mesmo é que a pessoa “comprometida” com você viva apenas para você e você apenas para ela. Bem, na Lua de Mel isso faz sentido, naqueles primeiros meses de novidade isso é bem gostoso, mas com o passar do tempo isso pode ser sufocante.


E com o passar do tempo, esse viver somente para a outra pessoa se tornou uma meta na sua vida, aconteceu, que você nem percebeu. Quando se deu conta, toda sua vida girava em torno desse relacionamento: suas finanças, o estilo de música que você ouve, os lugares que você vai, as pessoas que você convive. O mais sério não é que você faz por ela, é o que você não faz ou deixou de fazer por ela. Os lugares que você não vai mais, as pessoas com quem você não se relaciona mais e os sonhos e objetivos de vida que você abandonou por ela ou melhor pela ilusão desse relacionamento.


É difícil ter que constatar que essa barra, esse sacrifício é mais pesado do seu lado. Você fez essa entrega de corpo e alma, a pessoa em algum ponto recuou e ficou apenas na superfície sem mergulhar de cabeça como você fez. Sabe por quê? Porque esse oceano no qual você mergulhou é o mundo profundo do seu coração, das lembranças, da sua mente. É em você que faz sentido esse entrega completa, para a outra pessoa isso é chato, medonho e estranho. Ela tem ficado por conveniência, por comodidade.


Alguns vão te dizer que ela não te ama de verdade. Pode não ser bem assim. É verdade, que pela fragilidade que está implantada dentro do seu psiquismo, você se permita ser alvo de alguém que está se aproveitando. Mas podemos mudar o ponto de vista e passar a ver da seguinte forma: você está disposto a esse vício, mas essa pessoa com quem você convive e divide parte da sua vida, simplesmente, não está disposta a ficar doente igual a você. O que você chama de amor sincero, pode ser visto por uma pessoa mais livre, como prisão ou doença.



♫ Terapia com Música



Agora chegou a hora de nossa sugestão de dinâmica de autoconhecimento e cura interior. A proposta é que você leia a letra da música traduzida para o português no site Letras. Depois assista o vídeo-clipe com legendas em português lá mesmo no site Letras, ou no canal do André Alves no YouTube. Sinta a música, se entende o inglês feche os olhos. Veja a expressividade da dança dos bailarinos, sinta o drama. Se você estiver passando ou passou por algo semelhante, provavelmente vai chorar, deixa as lágrimas caírem. E se vier indignação por ter chegado a isso, deixa isso sair com um grito, com algum gesto. Se quiser, dance!



Como você pode dormir, quando mente para mim?


Como essa pessoa está vacinada ou se blindou para não ser magoada novamente, sua furtividade, sua mania de fugir e não se entregar pode ser uma dinâmica defensiva. Ela também pode precisar de “cura”, digo, de lidar com suas questões internas, porque sem resolvê-las, vai sempre ficar trocando de galho em galho. Mas hoje, não vamos falar sobre como ela tem a coragem, a cara de pau de mentir na sua cara que não tem dedicado o amor dela única e exclusivamente para você. Vamos falar do quanto você mudou, ficou ressentido, perdeu o brilho de viver e está ficando paranoico vigiando e controlando essa pessoa, para a todo custo manter o mundinho perfeito, no qual praticamente só existem você e ela e tudo gira em torno desse conto de fadas que você criou em sua mente e agora está obstinado de que ele deve se tornar real e não pode acabar.


Peço desculpas pelas palavras fortes que estou usando, eu sei que tem também muito amor, muito carinho em tudo isso. Falar assim de forma quase grosseira é uma forma de lhe chamar para a realidade e ver se você se toca que sua história de amor eterno está forçando a barra e passando dos limites. Espero que entenda, as relações humanas são assim mesmo. Começam desconfiadas, tem um pico de interatividade, desgastam-se e depois quase que se extinguem, ficando apenas uma lembrança e justificando um “bom dia” pelos corredores ou pela rua, ou ainda um “oi” pela rede social. O que te passa, para que você tenha medo de admitir que acabou ou que não é sustentável por tanto tempo a exclusividade que você idealizou?



♫ “How do you sleep” | Sam Smith (Tradução livre para o português)

Por um a caso, fiquei doido!? Eu nunca estive desesperado dessa forma. Eu nunca tinha feito isso antes. O que deu em mim, para ficar vigiando seu telefone!? Isso está acabando comigo.

Então, agora está começando a fazer sentido: porque para essa pessoa é tão fácil mentir. Porque para ela pode durar mais um pouco, como pode também acabar hoje mesmo. Outras opções terão por aí. Para você, não! Ele é tudo e você não sabe como ele não sente o mesmo por você. Mas essa pessoa não tem um coração de metal, como pode parecer. Pode acreditar que no contraste de não ter mais o que tinha, ela vai sentir a falta dos seus cuidados, que antes eram excessivos, agora não vai ter mais quem esteja lá insistindo, quase rastejando. E nesse momento, da sua decisão em se curar e para isso se afastar (desse relacionamento que não era necessariamente tóxico, na verdade, ficou tóxico) – nesse momento, – você correrá o risco de fraquejar e ficar, porque simplesmente você ama tanto, mas tanto, que você daria sua vida por ela, no final das contas, você a ama mais que a você mesmo. E isso é um sério problema, quando não podemos minimamente dosar as consequências.


Na música composta por Sam Smith e amigos, há um trecho que diz: “Mas basta você fazer um movimento e eu acabo desejando ficar”, ou seja, desistindo de ir embora. O que nos leva a crer que, essa próxima e necessária cena, deve ter sido ensaiada diversas vezes, mas um dos atores comete erro de gravação, adiando ela para mais tarde.



Não é apenas sobre fim de romances, mas término de parcerias


Quero lhe contar uma curiosidade, que é como se fosse uma coincidência, já existiu uma música com o mesmo nome no passado. “How do you sleep?” é uma expressão inglesa que nos remete a expressão “deitar no travesseiro com a consciência tranquila” em língua portuguesa. E “how do you sleep?” foi o nome que John Lennon deu a uma música sua, que criticava Paul McCartney, depois dele ter entrado na Justiça num processo que contestava a existência dos Beatles como uma parceria ou sociedade comercial.


McCartney revelou recentemente que a união do grupo era muito forte no começo, que eles eram até mesmo íntimos, ao ponto de protagonizar o que se costumou chamar hoje em dia de “brotheragem” [1]. Não estou aqui para julgar a vida pessoal de ninguém, mas é bem patente que algo ocorreu no fim da banda que de alguma forma mostra como alguns fatos ocorridos em 1969 foram decisivos para o desfecho da banda em 1970. Um ano antes do fim dos Beatles, Paul casou-se com Linda e Lennon divorciou-se de Cynthia por ter se envolvido com Yoko Ono e com ela se casou. O que se percebeu posteriormente, que a separação mais dolorida dessas foi entre McCartney e Lennon, eles trocaram queixas públicas até que as coisas foram se acalmando e o valor e importância de cada um na vida do outro pudessem surgir [2].





Agora, preciso explicar o que essa curiosidade histórica tem a vê com nosso tema. Imagine o que passaram as pessoas que se envolveram com John Lennon. Sua primeira esposa (e seu filho Julian) sentia sua falta em casa, porque ele era ausente e envolvido com drogas, ele estava dedicado inteiramente para aquela aventura de vida. Mas ao encontrar Yoko, uma grande força magnética parece ter completado algo que estava vazio em Lennon. Enquanto Lennon estava incompleto ele podia abraçar o mundo, mas deixava a desejar para com sua família. Quando ele encontrou algo com o tamanho e conteúdo simbólico que preenchia essa lacuna, ele já não tinha mais como se entregar às velhas amizades e ao projeto da banda, que era como se fosse um casamento de certa forma. Podemos refletir sobre isso porque o próprio Lennon, Yoko e Cynthia deram entrevistas ou escreveram biografias.


Vamos traduzir o sentido da música “How do you sleep?” de John Lennon, de uma forma geral diz: “mano, como você pode ter feito isso!? Você não era nada antes de nós. E você mesmo tem um talento medíocre. O que você é hoje, basicamente se deveu a mim, porque eu estava perto com o meu talento. Você nem acreditava que essa porra ia dar certo. É uma interpretação, essas coisas não estão lá escritas dessa forma, mas é quase isso.



Voltando ao “How do you sleep” do Smith


Na música do Smith, que tem outro enredo, a voz principal da música lamenta ter se dedicado tanto a um projeto, nesse caso de relacionamento íntimo, enquanto para a outra pessoa era apenas uma diversão. Não era sério, podia acabar a qualquer momento que não seria o fim do mundo. Alguma coisa me diz que a história dos Beatles, sobretudo de McCartney, Lennon e seus relacionamentos conjugais, tem uma correlação com o tipo de sentimento que estamos tratando: a entrega, o compromisso com um projeto, a desconfiança, a traição, a mudança de planos sem avisar, o término e o conflito pelos interesses. E o engraçado, que hoje, enquanto você está na fossa, desesperado com toda a situação, nem possa entender que vai passar. E, até mesmo depois de ressentimentos muito fortes, ficam amizades (um tanto tímidas), mas que estarão lá no futuro.


Sabe o que se assemelharia ao processo judicial aberto por McCartney dentro da música de Sam Smith? O olhar o celular. Vasculhar o telefone celular é como quebrar um laço de confiabilidade, é tão sério que na vida pública regida fortemente pelo Direito, é preciso de um processo judicial para quebrar o sigilo telefônico. E você está simplesmente, possesso porque, abriu “essa porra” desse celular e achou o queria, o que estava óbvio: ele tinha claras intenções de te trair, ou melhor, ele te traiu. E pior, ao saber que você olhou o telefone, ele não está preocupado em se defender do que fez, ele está indignado porque você olhou o telefone.


A música de Sam Smith é da pessoa traída indignada porque o “grande” projeto desmoronou; a música do John Lennon é da pessoa que traiu e não se conforma de ser responsabilizado por tudo ter acabado. Sabe porquê? Porque de alguma forma a pessoa mais livre, mais solta, ela sempre avisou, ela sempre deu sinais de que não ia se comprometer e porque você se enganou esperando isso dela? Você sabe o que Cynthia, a primeira esposa, disse sobre Lennon, algum tempo antes de falecer em 2015? “Ela surpreendeu ao confessar que, se soubesse das consequências que a paixão por Lennon acarretaria, teria ‘dado meia-volta e me afastado dele para sempre’” [3]. O que eu acho interessante disso, é que Yoko Ono já fala bem diferente sobre o quanto foi importante ter conhecido Lennon.


Posso dizer algo, que talvez você não vai gostar? Sabe aquela terceira pessoa que está falando com seu companheiro ou companheira no telefone, que você acabou descobrindo? Que você chegou até mesmo a ligar, para ouvir a voz dela? Talvez essa pessoa seja o marco de mudança. E vai doer ainda mais saber que você simplesmente poderá está melhor longe de tudo isso.


♫ “How do you sleep” | Sam Smith (Tradução livre para o português)

Para você, tudo isso não passa de um jogo, de uma brincadeira. Eu te juro, eu vou me libertar de você. E eu espero que seja você que chore e passe a noite em claro.

Se você reparar bem essa música de Sam Smith tem algumas passagens comuns de outras músicas. Essa parte de que para você é apenas um jogo, tem numa música da Adelle e essa de querer que outro passe uma noite em claro, tem numa música da Marília Mendonça. Então temos aí, um enredo que se repete na vida de várias pessoas. Que esquema é esse que seria comum a boa parte das trajetórias humanas?





O verdadeiro início dessa história


A psicanálise destaca a influência dominante de nossa relação para com nossos pais como determinante do padrão das relações que acabamos por manter no restante da vida com outras pessoas e outras situações. Há algo de muito forte nisso, a droga mais arrebatadora, com o “barato” mais eletrizante que você já provou, o gozo insuperável que você sentiu na vida, deva ter sido provavelmente quando sua mãe chegou vindo de cima, enquanto, você estava deitado, chorando, angustiado, sozinho e com fome. Ela surgiu e tudo foi reparado, saciou sua fome, te limpou, e te abraçou. Era aconchegante, a temperatura na medida certa, ela cuidava de tudo para você, como algo podia ser melhor que isso?


Mas tinha outra pessoa que lhe chamava a atenção, talvez com pêlos no rosto, uma voz mais grave, que também trazia cuidados. Talvez você fosse mais velho e ele brincava com você, fazia histórias de fantasia virarem realidade, fazia caretas e tornava tudo mais engraçado. Ele lhe inspirava, era sua grande referência, em tudo você queria ser igual a ele. Mas um dia tudo isso foi se acabando aos poucos. Não sabemos bem o porquê, talvez uma nova pessoinha chegou e roubou os cuidados e atenções, eles tiveram que se dedicar ao seu irmão. Talvez o relacionamento deles não tenha dado certo, ela, a sua mãe não podia tolerar a presença do seu pai. Ela precisava de distância dele, o que era muito justo dado as circunstâncias da separação. Já você, como filho e apenas criança, precisava dele, da presença dele, da companhia, do abraço o que, infelizmente, nunca mais teve. Eles te deixavam dormir com eles, mas isso nuca mais foi possível.


O fato desses personagens serem interpretados por sua mãe e seu pai biológico é o mais comum no filme das vidas humanas. Mas, no seu caso, os atores podem ter sido outros, mas os personagens são os mesmos. Uma cuidadora com energia feminina (e nada impede que tenha sido um homem) e um protetor com a energia masculina (podendo, tranquilamente ser uma mulher). Na verdade, essa inversão é comum e por meio dela você pode ter um referencial da figura masculina ou feminina diferente do dito padrão da sociedade, a principio, não há nada de errado nisso. Até que a pressões culturais lhe obriguem a “corrigir” aquilo que naturalmente se estabeleceu na sua história. Assim como, os dois personagens podem ter sido interpretados pelo mesmo ator, tal como uma mãe solo ou uma avó.


Cabe destacar que para Melanie Klein [4] essa relação na qual pai e, sobretudo, mãe são vistos como fonte de prazer inesgotável, tem dois lados. Na mesma proporção em que se ama e deseja, também se tem acessos de raiva pela recusa de que possam satisfazer seus desejos. Por trás de uma reação desesperada de alguém que foi "mal compreendido", que sofreu a ingratidão de um traidor, pode está a vingança dirigida àquela outra pessoa que não se predispôs a te servir, a embarcar junto com você na sublime fantasia do "felizes para sempre". Seu "eu" interior pode está dizendo: que bosta, primeiro foi minha mãe, depois foi meu pai, meus irmãos, meus coleguinhas, meu ex, todo mundo que eu mostro meu belo mundo perfeito (no qual eu vivo sempre feliz), de todos eles a quem mostrei esse fabuloso plano, ninguém quis mergulhar comigo. Tudo bem, não tem problema, vou transformar a vida de todos que se recusarem, num inferno. Se eu não posso ser feliz do jeito que eu quero, ele também não será".


Você pode dizer: "que horrível, eu não penso assim". Vamos fazer um teste, para ver se você é bonzinho mesmo. Na música do Sam Smith tem uma parte que diz: "E eu espero que seja você que chore e passe a noite em claro". Bem, se você chega sorrir por dentro em ouvir isso, em saber que ele vai sofrer igual ou pior que você e isso de alguma forma te conforta, então você passou no teste, você é um ser humano normal, ou seja, guarda uma pontinha de vontade de se vingar dessa mãe que não te deu de mamar na hora que você queria e desse pai que não repetiu a brincadeira como você pediu. Por isso tanto faz se for do Sam Smith ou da Marília Mendonça, você no fundo gosta de dizer: "A minha ausência vai fazer você perder o sono e ficar angustiado, aí sim eu vou me sentir bem".


Segunda a teoria psicanalítica em algum momento da preparação para a puberdade, você deve ter vivenciado algum tipo de separação dos seus pais, simbólica ou real. Circunstâncias da vida podem ter feito isso antes em alguma medida, dificultando o acesso completo para aquele amor sem fim que um dia você sentiu. Além da chegada dos irmãos e do divórcio, isso também pode ocorrer pela dedicação comum ou exagerada pelo trabalho por parte de seu pai ou sua mãe. Se essa separação não é bem trabalhada internamente, pode ficar um desejo oculto e incontrolável de retornar aos braços do pai ou da mãe.


Na história dos Beatles, talvez Lennon tenha sido para Cynthia como aquele pai divertido, que faz arder o coração. Já Yoko pode ser sido para Lennon como a mãe que em tudo nutre, guiando Lennon dando a ele segurança. Como posso saber sobre isso? Não posso, estou supondo, mas o próprio Lennon nos dá algumas pistas em sua música “Mother”.


Eu preciso te alertar, sua entrega total e irrestrita, justamente, a uma pessoa de estilo nada comprometido, ou que pareceu ser uma coisa e se tornou outra depois, pode ser resquício de lembranças tão boas e tão extasiantes que te fazem se jogar sem medo e sem medir as consequências. Provavelmente você não fez o ritual do “baile de debutantes” e, portanto, não se separou da parte boa do seu pai. Se você se identificou com esse post e a música escolhida, provavelmente isso deva ter se dado com a imagem representativa do seu pai. Mas nada impede que você tenha esse tipo de sentimento por sua mãe. Vamos continuar exemplificando com a figura paterna. Não tendo se separado da parte boa do seu pai interno, ainda que a relação com seu pai verdadeiro esteja abalada ou tenha passado por problemas.



Uma variante comum nesse tipo de história é permitir que seu inconsciente te traga sempre alguém parecido com seu pai, quase como se fosse um ator substituto, resultando numa situação contraditória. Aquele estilo de homem que se tornou sua referência de atração (ou sua contra-referência da qual você tenta fugir, mas acaba sendo atraído), pode ter sido um ótimo pai, num determinado período da sua vida, mas talvez não tenha sido o bom marido.


O que você vai escolher para se relacionar, os aspectos do seu pai como figura paterna ou como marido? Desejar tanto assim seu pai pode te trazer a inconveniente situação de receber de brinde um substituto que também repita como ele era como marido. Existe outro risco, nesse resgate dessa figura perdida, ela pode vir sendo mais infantil do que você e nesse caso, você terá sim a companhia de um homem parecido com seu pai, mas na condição de filho e você como pai ou mãe dele, independente do seu sexo. E nesse caso, o descompromisso ou a traição dele vai doer mais ainda, porque será destacado o fato de que você o manteve, deu sustento, cuidou dele como um pupilo. E ele vai ser “rebelde” e displicente, assim como um adolescente é pelos pais.


Existem outras possibilidades, existem questões mal resolvidas que perpassam entre descendentes de uma família, o que pode ser investigado pelo que chamamos de Psicologia Intergeracional. Uma ferramenta útil para sondar e saber de onde vem seu comportamento repetitivo é a Constelação Familiar, você pode saber mais sobre a oferta dessa terapia breve aqui no Zoe Integrativa, entre em contato conosco.


E falo sobre isso, porque ainda existe uma chance de você está inconscientemente incumbido de representar o fim "trágico", nas coisas do amor, assim como ocorreu com o ex-noivo, ou o primeiro namorado ou namorada, o amor proibido de sua mãe ou de seu pai. E nesse caso, estaria provado que essas influências são de mão-dupla, tanto age o complexo parental, como também age o complexo filial, ou seja, o amor (ou, infelizmente, o desprezo) que seus pais sentiram por você ou pela notícia da sua vinda. Por isso, não podemos saber o que te leva a se colocar nessa posição desmerecida no amor. Cada trajetória de vida tem peculiaridades. Mais uma vez vemos que o exemplo sobre a história dos Beatles é bem elucidativo.


Voltando a questão da música do Sam Smith, eu sei que você pode chamar a pessoa que foi descompromissada com o relacionamento de safado, mas se você não resolver isso dentro de você, vou te dizer o que vai ocorrer: você sempre vai mergulhar de cabeça em relacionamentos, geralmente, que no fim são desastrosos.


Sua dinâmica de entrega tem, claro, um lado positivo. Você é capaz de manter relações mais sólidas e duradouras, mas vai precisar observar os sinais antes de estabelecer um pacto, ou uma aliança com quem não será capaz ter reciprocidade a esse tipo de compromisso.


Palavras duras, mas necessárias: supera...


Particularmente eu concordo com a teoria psicanalítica, quando ela mostra: "olha, ali está uma coisa que você está buscando sem parar". Não vou poder lhe aconselhar: como conseguir voltar para esse lugar de aconchego quentinho. Vou ter que ser bruto, perdoe-me por isso:


Ok, foi bom, teria sido ótimo se pudesse

ter continuado para vida toda, né!? SQN.

Tem muita mais coisa para você viver, supera.

Supera tanto a perda do paraíso perfeito que te

prometeram quando era criança e

não rolou para sempre, como também supera,

já que você percebeu que contos de fadas

são histórias com começo, meio e fim.

Sabe quando vai durar para sempre?

Quando você desistir de que tudo deva ser perfeitinho.

Quando você abandonar a ilusão e

abraçar a vida real tal como ela é.

Sei que, hoje, dizer supera parece uma crueldade, já passei por isso.

Dói, dói para caralho.

Mas vai passar.


E preciso deixar uma mensagem muito forte aqui para todos nós. Amor não é coisa para principiantes, não é doçura o tempo todo, não é parque de diversão no qual paguei o ingresso e quero ter alegria garantida. Amor não foi feito para você, para servir a você; é, exatamente, o contrário: você foi feito para o Amor e é você que serve às causas Dele. Para ajudar a entender isso recomendo uma leitura e uma entrevista: o capítulo "O Amor" do livro "O profeta" do poeta libanês Khalil Gibran e a entrevista da filósofa Viviane Mosé, sobre "Por que sofremos?".


Pois assim como o amor vos coroa, também vos crucifica. E, tal como serve para o vosso crescimento, também serve para a vossa poda. Khalil Gibran

Os complexos parentais, quer seja o paterno ou o materno, agem dentro de você regendo como suas relações irão se estabelecer com pessoas, coisas, ideias e projetos que tenham a energia masculina e energia feminina.


Uma frase forte, mas que pode ajudar você no caminho da sua cura interior:

Benditos sejam seus pais que te cuidaram (ou fizeram o que puderam), malditos sejam os complexos parentais que lhe aprisionam! Aprenda a usar essas energias e lembranças para seu bem, se não elas vão te dominar.


Quer saber mais sobre complexo parental?

Então leia nossa série: "Precisei te perder para poder me encontrar".



Notas e Referências


Notas


[1]Brotheragem” é o nome dado quando homens heterossexuais interagem juntos em “brincadeiras” e outras intimidades de cunho sexual incluindo dinâmicas como a heteroflexibilidade e a bi-curiosidade. UAI - Mexerico. Em entrevista, Paul McCartney diz que já se masturbou com John Lennon. [On-line] Mexerico. Publicado em 12 set. 2018. [Link]

[2] Revista Rolling Stone. John Lennon achava que Paul McCartney era subestimado; entenda. [On-line] RS, UOL. Publicado em 21 jun. 2019. [Link]

[3] O GLOBO. Morre Cynthia Lennon, ex-mulher de John Lennon. Publicado em 01 abr. 2015. [Link]



Referências


Blaney, John. John Lennon: Listen To This Book. Guildford, UK: Biddles, 2005.


Goodman, Joan. "Playboy Interview With Paul and Linda McCartney". Playboy Magazine, Playboy Press. Publicado em 1984. Clipping: Beatles Interviews [Link]


PARCERIA LENNON E MCCARTNEY. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. [Link]


Gibran, Khalil. O Profeta. Cap. 2: "O Amor". [Trad.: Mansour Challita] Associação Cultural Internacional Gibran. Rio de Janeiro, 1980. [Link]


Mosé, Viviane. Entrevista. [Audiovisual] Duração: 4min 23seg. Canal do Marcos Lima. [YouTube]


Risvas, Charalampos K. Analytical Music Therapy: Bringing Unconscious Alive. Hellenic American University, 2015. [Link]


Oliveira, Marcella P. Melanie Klein e as fantasias inconscientes. Winnicott e-prints, São Paulo, vol. 2, num. 2, pp. 1-19, 2007. [Link]



Músicas


[1] "How Do You Sleep?", (2019), interpretação: Sam Smith, composição: Savan Kotecha, Max Martin, Ilya Salmanzadeh e Sam Smith. Duração: 3min22seg. Vídeo-clipe [Vevo - Youtube]


[2] "How do you sleep", (1971), interpretação e composição de John Lennon. com Colaboração de Yoko Ono e Phil Spector. Duração: 5min36seg. [Wikipedia]


Sobre o autor

Meu nome é Wagner Soares tenho 37 anos, sou taurino com ascendente em sagitário, ao todo fui e sou pai de 5 filhos, natural de Maceió-AL, mas resido em Recife-PE, onde trabalho como servidor público federal. Já estudei Administração e Segurança Pública, área que ainda atuo. Depois de um divórcio difícil, uma mudança de emprego marcante e um intenso movimento de afirmação de minha sexualidade, percebi que tanto no ambiente da vida pessoal como da social, conteúdos psicológicos profundos afetam a trajetória das pessoas assim como das organizações. Por isso me tornei mestre em Ecologia Humana focado no campo da Ecologia Mental, sob as bases da Psicologia Complexa de Carl Gustav Jung.


No intuito de trazer saúde para os sistemas sociais humanos, entre eles as organizações do trabalho, tenho buscado saberes e práticas de cura. A cura de empresas, famílias, órgãos, partidos, sindicatos e instituições em geral perpassa em conjunto pela cura das pessoas que integram esses sistemas sociais. Percorrendo esse caminho, hoje eu sou constelador familiar, terapeuta organizacional e aluno de Psicologia.


Para empresas e demais instituições ofertamos nossos primeiros achados da Ecologia Organizacional Clínica, através de consultoria.


Para as pessoas abordamos as Ciências da Família nos temas de Sexualidade, Conjugalidades e Cultura, assim como ofertamos sessões de constelação familiar e processos de life coach.


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