Blog Zoe Integrativa

Precisei te perder para poder me encontrar

O caminho, o caminhar e o caminhante e a trajetória da individuação

Parte 3, esta série tem 3 partes


Chegamos à última parte de nossa série, que mostrou resumidamente como nosso grande amor por nossos pais pode gerar uma necessidade de buscar de forma muita intensa o mesmo padrão de relacionamento, ainda que problemas de percurso tenham feito com que esse padrão seja negativo.


Amor e ódio nesse caso seriam apenas uma inversão do fluxo de um mesmo tipo de sentimento. Bastando uma grande frustração para tornar um no outro. E nesse caso, grande parte dos problemas em família, não são essencialmente por relações negativas, mas por amar demais. O que vimos nas partes anteriores é que o padrão de relação que vai sendo construído para com nossos pais acaba influenciando nas outras áreas de nossa vida.


Na primeira parte, compreendemos como o complexo parental funciona e como pode se tornar uma armadilha (clique aqui para poder ler a Parte 1).


Na segunda parte, aprendemos algumas coisas sobre complexo parental positivo ou negativo e identificando a influência deles em sua vida adulta. Na parte 2, também falamos sobre como abusadores socioemocionais ocupam o espaço dedicado ao complexo parental e nos deixam de joelhos perante sua vontade (clique aqui para ter acesso à Parte 2).


Na parte final, vamos conversar sobre o processo de individuação, sob a perspectiva de dois pensadores: o mestre galileu Jesus e o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung. Vamos abordar sobre a primeira etapa da individuação, que seria passar a ser você mesmo e para isso, seria preciso deixar de ser uma cópia de seus pais. Para abordarmos tudo com calma, temos que explicar bem direitinho, por isso você pode decidir ler aos poucos. Até porque os exercícios da Terapia com Música devem mexer um pouco como você.


Odiar pai e mãe, como assim? Não era para honrar?


Nas partes anteriores dessa série, usamos essa expressão “precisei te odiar para poder me amar”, algumas pessoas acharam ela pesada. Na verdade, eu não inventei essa frase, ela é parte da letra de uma música que fez muito sucesso nos Estados Unidos e no mundo, no ano de 2019 (Você pode ler a letra aqui e ver o clip nesse outro link aqui). Dizem os boatos da Internet que a música foi feita pela atriz e cantora de origem mexicana Selena Gomez tendo em vista as decepções e o término do relacionamento com o cantor canadense Justin Bieber.


Na primeira postagem, eu alertei: “olha, essa frase antes mesmo da música é uma passagem bíblica”, vou mostrar qual:


“Quem vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe [...] não é digno de mim”. Lucas 14,26

Essa frase acima é de mestre Jesus e ficou registrada no livro escrito pelo médico grego chamado Lucas. Nos idiomas modernos, a tradução pode ficar: “quem amar mais a eles do que a mim não poderá ser meu discípulo”. Jesus usa essa expressão forte, que ousa dizer para você amar menos seus pais. Na verdade, ele estava falando de cura interior. Você pode largar as ideias e parte daquilo que seus pais ensinaram que você tinha que fazer, para seguir seu próprio caminho.


♫ Terapia com música


A questão é que por mais que saibamos disso, rodamos, rodamos e acabamos “como nossos pais”, assim como diz a música do compositor brasileiro Belchior (interpretada por Elis Regina). Ou seja, existe uma força que não depende de sua vontade consciente que te arrasta para situações de imitação dos passos dos seus pais, ou talvez até mesmo dos pais de seus pais.





Nossos ídolos ainda são os mesmos. E as aparências não enganam não. Mas é você que ama o passado e que não vê. Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, Tudo o que fizemos. Nós ainda somos os mesmos e vivemos. Como os nossos pais. "Como nossos pais", Belchior / Elis Regina

Antes de continuarmos, preciso confessar que essa maneira de trazer os ensinamentos do mestre Jesus para o campo da Psicologia é uma inspiração no trabalho do psiquiatra brasileiro Augusto Cury. Normalmente aquele mestre é tratado apenas como uma figura religiosa e espero mostrar como Jesus consegue ser atual e muito oportuno para nos ajudar a refletir em nossa vida interior.


Jesus de forma mitológica é identificado como Cristo. Para Jung dizer que alguém é o Cristo, é como dizer que ele está representando o Todo Integral do Universo, a singularidade no meio de cada ser vivente. Jung tinha um nome específico para essa posição, seria “Self”, o destino-direção da jornada da individuação. Não é possível dizer se Jung acreditaria que Jesus era um Cristo de verdade em si, mas é como se todos nós precisássemos nos alinhar com esse Todo e assim se tornar o porta-voz dessa grande sabedoria. Vamos refletir nos versos do poeta persa Rumi, que parece ter se tornado tal tipo de porta-voz:

“Quando você começa a caminhar, o caminho aparece.”“Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo...” Rumi

É preciso percorrer um caminho e aquele que caminha ao chegar mais perto desse destino, acabará se tornando ele mesmo o caminhar, a força que anima o caminhante e que deu o sentido do caminho. É mais ou menos isso que quer dizer ser ao mesmo tempo “o caminho, a verdade e a vida”. Essa é uma proposição muito conhecida no Oriente, no qual o caminho, o caminhante e o caminhar se tornam uma coisa só.


Essa breve explicação dá conta muito vagamente do que seria o processo de individuação, tão falado por Jung. Cada um teria um caminho próprio para seguir, que não está desenhado antes de começar, ele é feito à medida que se caminha. Nessa proposição, cabe citar os versos do poeta espanhol Antônio Machado:

Caminhante, suas pegadas são o caminho e nada mais, Caminhante, não há estrada, você faz o caminho ao andar. Ao andar, o caminho é feito e, quando você olhar para trás, Vai ver o caminho que nunca mais vai voltar a fazê-lo. Caminhante não há estrada, apenas um rastro no mar. Antônio Machado, poeta espanhol

Estamos propondo aqui que há três etapas nesse caminho: encontrar, encontrar-se e deixar-se ser encontrado.


  • Etapa 0 – Encont