Quando você dar de si mais do que o outro possa retribuir, isso se torna pesado

#vanessadamata #benharper #contelacaofamiliar #darereceber @zoeintegrativa @wagner.soaresdelima #vemprazoe #boasorte #terapiacommusica



Provavelmente você já faça ideia que numa relação, quando uma pessoa se doa mais que a outra, aquela que deu tudo de si, poderá se frustrar em não ter a mesma retribuição. Talvez, o que você não saiba é que quem é amado demais, aquele que é objeto da atenção total do outro, também sofre.


Sofre, justamente porque não poderá retribuir. E a lei da reciprocidade é uma característica muito profunda, arraigada na forma como os seres humanos interagem em sociedade [1]. Para essa pessoa, é como se ficasse em débito, o relacionamento será como uma corrida desgastante para acompanhar o ritmo do outro que se doa sem medida.


Aí está um dos princípios tratados nas constelações familiares. Chamamos esse “desencontro” de falta de equilíbrio entre o Dar e o Receber. Quando Bert Hellinger [2], o criador das constelações, verificava esse tipo de problema, geralmente ele buscava dentro do mundo interno da pessoa, que amava demais, alguma outra figura que estava sendo confundida e distorcendo o seu “ponto de vista”.

“Tudo o que quer me dar e demais...”

Emma Jung [3], esposa e colaboradora do psiquiatra Carl G. Jung, costumava dizer que a música e a poesia tratavam desses temas com muita propriedade, porque eram produtos diretos da alma. E ela explicava fatos psicológicos com trechos de música. Inspirados nela, encontramos uma canção da Vanessa da Mata intitulada: “Boa Sorte”, de 2007 [4].


Vamos propor uma dinâmica: vai ser bem interessante, se você se dispuser a ouvir primeiro a música, retornar para o texto e depois das explicações dadas aqui, ouvi-la novamente, para sentir em sua alma o que ela lhe diz. (Clique aqui para ler a letra da música).


Veja o que uma das estrofes diz:

“Boa Sorte” Vanessa da Mata Tudo o que quer me dar É demais, É pesado Não há paz Tudo o que quer de mim Irreais, Expectativas Desleais.

Nesse caso a música é como se tivesse sido escrita pela pessoa que foi amada em excesso, sem poder retribuir com igual intensidade. Pense agora, que a cada gesto de atenção, cuidado e amor, isso representasse uma pedra, algumas seriam pequenas, outras seriam grandes. Se uma das pessoas dar muito de si, ou seja, entrega muitas pedrinhas, depois de um tempo, é a outra que sentirá o peso.


Enquanto a pessoa que recebe essa super atenção, se sente pesada; a pessoa que deu muito de si mesma como oferta para a outra, em algum momento, poderá se sentir cansada ou vazia de propósito. É como se ela perdesse energia e, ainda, há casos em que ela sente ingratidão ou que merecia ser melhor recompensada: “como pode!? Eu dei tudo de mim, fiquei até sem, para poder suprir as necessidades dela”.

Meu mal é te amar demais

Oferenda, esse é um nome bem apropriado. Porque é como se a pessoa amada fosse um deus ou uma deusa, a quem se deva prestar um culto particular de devoção diária. E nesse caso, nem podemos responsabilizá-la, ela é quem foi posta num pedestal, num lugar sagrado, enquanto ela simplesmente só queria ser humana comum.


É nesse ponto que a lição dada pela psicóloga e consteladora familiar Sônia Onuki [5] nos alerta do quão grave essa “adoração” pode ficar, quando há frustração. Num exemplo extremo, Dra. Sônia nos lembra que “[...] os adolescentes quando se sentem rejeitados por um parceiro amoroso, podem tender ao suicídio, porque entre outros fatores, sentem-se duplamente rejeitados”.


A música que estamos usando para nossa reflexão é, na verdade, uma mensagem de término. Imagina como a pessoa que se doou por inteiro, aquela que mergulhou de cabeça no relacionamento deva se sentir. Sônia Onuki explica ainda que um dos reflexos de uma deficiência do amor dos pais sobre a mentalidade infantil é uma fixação demasiada na figura de outra pessoa, um substituto.


Em alguns casos, a pessoa que ama demais e começou a se sentir injustiçada, poderá ter uma surpresa desagradável. Mesmo sendo ela quem acreditava ter motivos para acabar o relacionamento, é a outra pessoa que pode simplesmente dizer: “não aguento mais esse peso”. Ou dizer, assim como na música “Boa Sorte”:


É só isso Não tem mais jeito Acabou, boa sorte Não tenho o que dizer São só palavras E o que eu sinto Não mudará.

Uma surpresa como essa vai com certeza tirar o chão da pessoa que ouve. Mas é preciso ter muita calma, depois do impacto do susto, parar e refletir um pouco. Talvez as próprias ações de quem “amou demais” possa ter causado o desiquilíbrio.


Temos inclusive que por em suspeita: será que tudo isso foi realmente um amor saudável? Como se chegou a essa situação, em que você amou demais, deu tudo de si e, ainda, sim é o “errado” da história? A composição da Vanessa da Mata dá uma pista muito importante para esses questionamentos, em outro trecho da música:

Mesmo, se segure Quero que se cure Dessa pessoa Que o aconselha Há um desencontro Veja por esse ponto Há tantas pessoas especiais.

Quem seria esse conselheiro, que age como algo quase doentio, do qual é preciso se curar? Na música se diz: se segure, para não cair. É como um abismo sem fim, por mais que você dê, nunca supri. É algo que não se consegue pagar.


Por isso se torna uma queda em meio à escuridão da noite, como diz a parte em inglês cantada por Ben Harper:


Now we're falling Agora, estamos caindo Falling Caindo Into the night Dentro da noite

Como escapar dessa queda livre?

E se ligarmos a luz você poderá ver quem está puxando você. Se as características da situação forem essas que foram ditas acima. É muito provável, que alguém muito especial seja o verdadeiro destino do seu amor em excesso. Há uma chance de você ter confundido a pessoa do atual relacionamento com uma imagem afetiva muito forte da sua vida. Se for seu pai ou sua mãe, realmente há uma dívida “impagável”: pois eles lhe deram a sua vida.


Pode ser uma confusão diferente, relacionando a outra pessoa ou lembrança, mas ao certo há algo ou alguma história desconhecida atraindo a pessoa a uma perpétua rotina de entrega, rotina essa, na qual é possível que não cuide de si suficientemente como deveria, colocando-se a si mesmo, em segundo plano, e sobrecarregando o outro, exigindo dele o mesmo tipo de devoção.


Convidamos você a se dispor a ver isso de forma mais clara através das constelações familiares sob a abordagem junguiana. Assim como você pode se tornar aquele que vai ajudar pessoas a escaparem dessas situações que levam a grandes decepções. Uma vez livre desse tipo de fixação, você poderá seguir sua vida, como diz na música: olhando, por um novo ponto de vista, perceber que existem muitas outras pessoas especiais e você mesmo é uma dessas, que também merecem sua própria atenção.




Notas do Autor

Esse texto eu escrevi, aos choros, em fevereiro de 2020, porque eu mesmo estava vivendo essa situação, na posição de quem se doa mais do que pode. E te conto isso, para você entender que a “loucura criativa” de Jung e a sublimação de Freud são medidas de remediação extremamente importantes.


Transformar a dor em algo útil e até mesmo redentora da sua alma. Use a Terapia com Música, ela vai fazer lágrimas de alívio fluírem em você, se a angústia continuar, permita-se experimentar a Constelação Familiar sob abordagem junguiana aqui na Zoe Integrativa.

Notas e Referências

[1] Sobre o fato do “mecanismo” biológico nato que nos impulsiona a retribuir aquilo que nos é ofertado de forma genuína, vale a pena conferir as reflexões do antropólogo Jorge Luiz M. Villela, professor da Universidade Federal de São Carlos, no artigo: “A dívida e a diferença: reflexões a respeito da reciprocidade”, na Revista de Antropologia (São Paulo, vol. 44, num. 01, pp. 185-220, 2001), [Link]. As reflexões são baseadas, sobretudo, na teoria do “dom” de Marcel Mauss.


[2] Sobre o princípio do Dar e Receber em constelações familiares é oportuno ler Bert Hellinger e Gabriele ten Hövel, no livro: “Constelações Familiares: o reconhecimento das ordens do amor” (São Paulo: Cultrix, 2007), [Link].


[3] Emma Jung. “Ânima e Ânimus”, (São Paulo: Cultrix, 1991).


[4] Música “Boa Sorte/Good Luck”. Composição e Interpretação: Vanessa da Mata. Participação: Ben Harper. Sony/BMG, 2006/2007, [Link].


[5] Sônia Onuki fala sobre o emaranhado formado na deficiência de amor dado pelos pais aos filhos, os quais desde a infância até a vida adulta irão tentar compensar isso, num tipo de fixação sobre uma figura substituta, demonstrando um desequilíbrio entre o Dar e o Receber. Cf. ONUKI, Sonia. “Constelação familiar: Desfaça os emaranhados da sua vida para criar laços”, (Buzz Editora, 2019) [Link].

(*) Sobre o Autor

Wagner Soares de Lima é constelador familiar sistêmico formado pelo Instituto Onukisan e constelador estrutural pela Geiser Works. Mestre em Ecologia Humana, especialista em Gestão Pública e graduado em Administração, atua como terapeuta organizacional (wagnersoaresdelima@gmail.com).

38 visualizações

©  2020 por Zoe Integrativa  | www.zoeintegrativa.com

  • Instagram
  • Facebook
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone SoundCloud

Tel: (81) 9.9188-1404

Informações comerciais:
Responsável pelas vendas - CPF n.º 036.148.444-55 | Prazo estimado para entrega dos produtos físicos - de 5 a 15 dias

Nosso Conteúdo

Blog

Loja

Livros

Óleos Essenciais

Canal do Youtube