• Wagner Soares de Lima

Mulher brasileira e suas raízes: a força de sua ancestralidade afro-ameríndia

Atualizado: Mar 9


Neste Dia Internacional das Mulheres, queremos honrar a força da ancestralidade da mulher brasileira. E esse desejo não nasceu apenas pela data comemorativa, surge de observações em terapias, não é um, nem dois, são muitos casos de mulheres que trazem uma queixa comum: não me sinto realizada, não tenho forças pra ir atrás daquilo que acredito, não vi ainda o que eu sonhei para mim.


Quando vão bem no trabalho e nos estudos, vão mal no amor e na família. Quando as relações mais íntimas são minimamente satisfatórias é a carreira que está parada. Quando as clientes de constelação chegam com essa queixa, se não tem nada que se possa lembrar rapidamente em seu círculo familiar mais próximo, que justifique essa estagnação. A pergunta certeira, geralmente, é: você é descendente de Povos Originários do Brasil ou filha da Diáspora Negra?


Percebe-se, nessas mulheres, sentimentos de incompletude, de solidão e de saber que tem algo a ser feito, mas não saber o quê. Elas relatam uma devoção à empresa, à família, a um parceiro ou parceira, mas essa dedicação é de tal forma, que elas não sabem explicar, feita em uma posição incômoda de anulação e de uma apatia que, a principio, não faz sentido. Muitas se culpam por não pensarem como lhe disseram que deviam pensar, no fundo, ocultam desejos por novos ares, novos lugares, novos amores, por outra trajetória que parece ser pecado seguir.


Todos esses sentimentos formam um conjunto típico do afastamento de suas raízes. Longe da árvore que deu vida, vigor, energia por gerações de uma linhagem matriarcal (ou matrial), simplesmente essas mulheres são impedidas de ser o que são por essência: guerreiras, empreendedoras, mobilizadoras, articuladoras de espaços públicos, coletivos e comunitários. Elas sentem o chamado para serem mães, não apenas de seus filhos biológicos, quando os têm; elas sentem um chamado para serem líderes de uma comunidade inteira.


Quando se fala do vigor para luta, temos que admitir: homens lutam, quando as coisas apertam; diferentemente, as mulheres já nascem lutando. E para que qualquer um de nós tenha nascido uma mulher lutou. Uma matriarca não é convidada para assumir a liderança, a vida simplesmente lhe compele a esse lugar, para o qual ela chega, porque ou é isso ou é morrer. No maior número de casos, não se trata de uma busca pelo poder de forma ambiciosa, é um assumir uma luta pela existência, pelos filhos, pela terra, pela casa, pelo direito de viver.


Mas há algo desconectado, há uma áurea de esquecimento. Dizem que o ser humano realmente esquece as coisas por natureza. Mas não foi apenas o esquecimento do tempo que passou, teve uma parte disso que foi provocado, praticamente forçado. Ou seja, estamos falando de mulheres tiradas de seu lugar e forçadas a esquecer, aquilo que as ligava com as energias fundamentais da vida e da Terra.


Elas são o que Erenay Maciel, chama em sua dissertação de mestrado [1]: “pretas-índias desaldeadas”, uma identidade que já fora chamada de “cabocla”. Elas trazem traços culturais tanto de povos indígenas das Américas como de povos nativos de África. Algumas, por desconhecerem o que seria típico de seus ancestrais, dizem: “isso é coisa do meu jeito de ser desde de criança, dizem que eu já nasci assim ‘diferente’”. Se conhecessem mais sobre quem foram suas avós, bisavós e toda árvore genealógica, saberiam que não são apenas formas de ser escolhidas ou moldadas para aquele sujeito, são formas de ver o mundo e de se colocar nele que já vem sendo repetido por séculos.





Ao destacar a matriz africana e ameríndia, de forma alguma desprezamos o valor da herança portuguesa, espanhola, árabe (síria, libanesa), judia, japonesa, italiana, alemã e todo o conjunto europeu e asiático. Somos sabedores, que na maior parte esses povos que também compõe a alma brasileira vieram fugindo de guerra e fomes. A identidade da mulher brasileira tem um pouco de cada espírito das mulheres europeias e asiáticas. Mas as mulheres africanas e nativas desta terra e rios não foram ensinadas a ter orgulho do que carregavam de mais precioso no coração, ao contrário, suas tradições foram rotuladas como coisa de escravo, coisa de povo de menor valor de uma forma tão mais forte que os demais imigrantes e colonos, que hoje elas não sabem quem elas são.


Elas são “pontas de rama” [2] de uma linhagem que quer continuar viva, mas não tinha achado, até agora, quem a desse continuidade. São vozes das florestas, dos rios e dos mares que ecoam na alma das filhas dessas mulheres que, no passado, bravamente lutaram para manter suas famílias vivas. Da árvore genealógica, da árvore da vida de cada uma dessas linhagens, às vezes, sussurram, às vezes, gritam, vozes para que essas filhas da tradição, mesmo baratinadas, com amnésia histórica e confundidas pela modernidade e pelos costumes de outro povo, mesmo assim, possam reassumir sua posição. Que posição?


Está aí a diferença entre os europeus e asiáticos, que mesmo guardando o que vamos dizer em pouca quantidade, não é tão forte quanto na herança africana e ameríndia: a liderança feminina, na pessoa de mulheres e nos princípios que regem a forma de entender o mundo. Nisso temos que concordar com o sociólogo jamaicano Stuart Hall [3]: “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente”. É isso, a mesma mulher é neta de uma imigrante europeia, bisneta de uma ex-escrava negra e tataraneta de uma “mãe-véia” de tribo. É complicado quando uma dessas heranças diz dentro do seu psiquismo mais profundo: olha, o jeito dessa outra aí é esquisito, não seja igual a ela não.


Mas negar, justamente, a herança negra e indígena, para mulheres que carecem da força ativa de um feminino guerreiro que enfrenta desafios e é mais livre em relação aos homens, é o mesmo que pedir para morrer em vida. Se faz parte do caminho escolhido por elas, ganhar mais espaço, mudar realidades, então é dali que virá a energia necessária para fazer o que precisa ser feito. Em outra passagem Hall diz: “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”.


Mas o que explicarmos aqui, não será o suficiente para que as mulheres filhas dessa tradição ancestral possam apreender, guardar de verdade esse sentimento para si. Preferimos apresentar duas mulheres fortes, que expressam em sua fala tudo o que estamos tentando dizer que é preciso ser resgatado: Alessandra Korap e Eliane Dias.






Notas


[1] Conforme MACIEL, Erany M., "Espaçotempo & Ancestralidade de matriz africana em terras caboclas", 2015.


[2] Termo do Sertão Nordestino que significa o “caçula”, ou aqueles herdeiros que vieram por último, os mais novos de uma linhagem, tal como ocorre com o “olho” ou “broto” de uma planta.


[3] Claudina Maximiano cita Stuart Hall (2002) Cf. Maximiano, Claudina A., “Mulheres Indígenas: Diálogo Sobre a Vida na Cidade”, 2013.



Referências


KORAP, Alessandra. Nunca existiu democracia para a população indígena. [Audiovisual] Duração: 48min. Publicado em 02 ago. 2019. [Link]


KAXUYANA, Ângela; QUILOMBOLA, Lúcia. Bate Papo na Saúde - 2ª CNSMU: Mulheres Indígenas e Mulheres Quilombolas. [Audiovisual] Canal Saúde Oficial. Duração: 24min 10seg. Publicado em 00 aaa. 2017. [Link]


MACIEL, Erany M. Espaçotempo & Ancestralidade de matriz africana em terras caboclas. Dissertação (Mestrado em Educação). São Paulo: USP, 2015. [Link]


MAXIMIANO, Claudina Azevedo. Mulheres Indígenas: Diálogo Sobre a Vida na Cidade. Ponto Urbe [Online], vol. 13. Publicado em 31 dez. 2013. [Link]


DIAS, Eliane. Toda mulher precisa ser independente. [Audiovisual] Duração: 11min 03seg . Girl's Talk Capão Redondo. Publicado em 22 out. 2017. [Link]

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