• Wagner Soares de Lima

Eu preciso ir embora, não posso ficar para morrer de amor

Quando mulheres se sujeitam a relacionamentos amorosos frustrantes por incapacidade de se desligarem da imagem de seus pais



Amor de filha


Um tema recorrente em minhas sessões de constelação familiar é a ausência do rito de passagem da adolescência feminina, rito esse que poderíamos chamar de o “Baile de Debutantes”. A tradicional Festa dos 15 anos marcava o momento em que a menina era apresentada à sociedade como futura mulher. Não digo que o evento glamoroso precisa ser mantido, mas as mulheres precisam de algo que as afastem ligeiramente da imagem de seus pais, sobretudo, quando há memórias boas. É isso mesmo que você ouviu, o maior problema não são as memórias ruins. O mais difícil é lidar com as memórias boas da primeira infância, para as quais há uma supervalorização interna e das quais não desejamos nos dissociar.


O pior cenário é quando no começo há memórias muito boas e depois há uma sequencia de abandono ou abuso, quer seja para com a menina ou para com a mãe dela. Nesse caso, as boas memórias vão inconscientemente impedir que a menina, agora mulher, possa rejeitar aquele padrão de comportamento. Olha só que coisa bem doida, a mulher que teve algo de bom do seu pai e depois teve contato com lado sombrio dele, tende a rejeitar o pai e normalizar o comportamento. Quando o melhor para seu equilíbrio seria: aceitar o pai e rejeitar o comportamento.


Quais problemas podem surgir dessa situação? Um apego inexplicável por um homem ou por um padrão de homens cafajestes, descompromissados, violentos ou com alguma outra questão que desvaloriza o lugar da mulher na relação. Mas é óbvio, que a relação não poderia ser entre iguais, ser paritária; trata-se da pequena e desprotegida menina apaixonada pelo grande herói da sua vida. Portanto, a primeira coisa que precisamos dizer é que pai é pai e marido é marido. Quando namorado, noivo, parceiro, amante, ficante, esposo e ex-marido ficam nessa posição de substituto do pai de forma desarmoniosa, o risco de se vê em problemas do coração é muito grande.


Esse é um assunto delicado e teremos que tratar sobre ele aos poucos. Vamos começar pela dor da despedida, quando a mulher-menina finalmente entende que ela precisa do seu lugar e não mais acompanhar o pai fanfarrão e mulherengo. E vamos fazer isso por uma análise musical de uma belíssima canção.

A hora de partir


A hora de partir pode ser especialmente muito sofrida e ao mesmo tempo um gesto muito bonito. Nessa sessão vamos falar particularmente, da capacidade do elemento mais “maduro” se distanciar mesmo com o risco de seu desequilíbrio emocional. Existe uma música que foi parada de sucesso internacional na voz da incrível cantora norteamericana Whitney Houston: “I Will Always Love You”, do ano de 1992, imortalizada como a trilha sonora do filme “O Guarda Costas”.



Você já conhece a letra dessa música? Conheça aqui: https://www.letras.mus.br/whitney-houston/18488/traducao.html

Se eu ficasse Eu só te atrapalharia Então eu vou embora, mas eu sei Que pensarei em você Em cada passo do caminho “I Will Always Love You” Dolly Parton

Porém essa música foi composta e gravada pela cantora norteamericana Dolly Parton em 1974, no estilo country. Hoje, Dolly tem mais de 70 anos e possui um repertório de grandes composições, tinha na época 28 anos idade. Fez grande sucesso como dueto de Porter Wagoner, que tinha um show semanal na TV. Foram sete anos de parceria, rodando todo o país, mas em um determinado tempo as coisas não estavam mais indo tão bem assim. O casamento de Dolly com Carl Dean tinha um ano a mais que sua participação no programa e não estava mais conseguindo se manter com toda a distância e os rumores de outros amores na vida da cantora.


Não se sabe, ao certo, para quem Dolly escreveu: “para sempre vou te amar”. Ela apenas costuma dizer que escreveu a música em relação à necessidade de sair do programa. Mas em sua autobiografia, ela conta que mais ou menos na mesma época, um relacionamento extraconjugal lhe levou ao fundo do poço, deixando-a tão confusa e angustiada que esteve pronta para cometer o suicídio. Conta-se que foi um cachorro dado por seu marido que, ao latir e entrar no local, a fez desistir.



Doces amargas lembranças Isso é tudo que estou levando comigo Então adeus, por favor, não chore Nós dois sabemos que eu não sou o que você, você precisa I Will Always Love You Dolly Parton

Se repararmos bem, o filme o “O Guarda Costas” também mantém um enredo sobre uma cantora entre a fama, a frustração, a família, amores e um amor com homem que não é do meio da fama. Ao examinarmos a letra de “I Will Always Love You”, você verá que há uma pessoa sofrendo, mas que é capaz de negar a si mesma pelo bem do outro. Com certa sensibilidade, você vai perceber que o “eu” lírico da belíssima poesia, apesar de ser um companheiro, do qual poderia se esperar uma relação paritária, de igual para igual, há um cuidado para com o outro, semelhante ao que um pai teria por seu filho.


Considerando algumas lições da Psicologia de Jung, sabemos que a regência do inconsciente se dá geralmente de forma preponderante pelo polo oposto. Seria normal, nesse sentido, supor que numa fase tão intensa e profunda de Dolly, essa voz que fala do fundo da alma da cantora tenha um posicionamento masculino. Chamamos isso de ânimus e, portanto, essa instância masculina está falando com a instância feminina inconsciente do amado, um complexo que chamamos de ânima.


Se você for uma mulher como a Dolly, ou um homem com identificação com o polo feminino você deverá ser capaz de ler a letra dessa música e conseguir visualizar um pai dizendo para sua filha, que para o crescimento dela, ele precisa se retirar da vida dela. Mesmo sabendo que essa música, provavelmente, foi fruto de um rompimento de um relacionamento amoroso entre uma mulher e um homem. No mais profundo, parece ser aquilo que um pai deveria dizer à filha em seu casamento ou em seu baile de debutante: “nós dois sabemos que eu não sou o que você, você precisa”.

Eu espero que a vida te trate bem E eu espero que você tenha Tudo o que você sonhou E eu te desejo alegria E felicidade Mas acima de tudo, te desejo amor I Will Always Love You Dolly Parton

Mas não podemos sair fazendo conjecturas sobre o sentimento oculto que motiva os poetas e artistas. Vamos, por ora, apenas acolher a alegação pública da cantora e compositora, ela disse que a música era pelo fim do projeto de trabalho. Isso é muito importante, porque ao ouvir essa música, você também pode imaginar um projeto, uma empresa, um sonho para o qual havia muita expectativa, nele havia depositado muito esforço, muita energia psíquica; contudo, chegou a hora de se despedir e tomar um caminho diferente. E, nesse caso, é você que se despede dele ou é ele que está lhe dizendo que o tempo dele na sua vida já findou?


Enfim, o fim...


Podemos dizer que a capacidade de se afastar de tudo isso, que se deixar te consome como um poço sem fundo, fez a diferença entre as trajetórias de Whitney e Dolly. Entregar-se a essa energia deu a Whitney mais paixão, mais força para impactar multidões; mas isso tudo é tão forte que não só lhe deu uma carreira meteórica, como em vários aspectos destroçou sua vida pessoal. Por isso precisamos falar depois da música “I Have Nothing”. Dolly Parton apesar de 17 anos mais velha que Whitney, permanece ativa no mundo musical, ainda que com uma fama mais restrita aos Estados Unidos. Dolly viveu tão intensamente como Whitney, mas teve um momento decisivo de dizer: basta, eu preciso ser mais eu.


Hoje em dia, Dolly também é o que chamamos de filósofa popular, tem livro de auto-ajuda e uma dos ensinamentos dela é “sonhe mais, aprenda mais, se importe mais e seja mais”. Mas o que ambas viveram não foi fácil e não há muitas garantias que uma mulher possa se dissociar da influência da imagem de seu pai sem estragos na sua vida afetiva.


Quer você esteja no dilema entre o casamento e o trabalho, quer seja entre a vida pessoal e a vida profissional, quer você tenha se sentido tocada pela imagem de ser seu pai se despedindo, a proposta é que você possa ler a letra completa, enquanto ouvi a música. E que possa acolher essa mensagem, trata-se de um ser mais velho e mais sábio, ele está falando com você, ele te ama tanto que quer o melhor para você, ao ponto de dizer: “bem, minha querida filha, está na hora de nos despedirmos, foi muito bom lhe ter aqui perto, vou sentir muita saudade, mas é melhor para você que eu lhe deixe disponível para viver sua própria vida”.

O que seria mais uma lágrima, em um mar de dores? Por isso, há nisso tudo certo conformismo em perder e ainda pedir desculpas a quem lhe fez sofrer. Isso não é normal, apesar de ser comum. Tem algo disfuncional aí e de acordo com as psicólogas suiças Emma Jung e a Verena Kast, provavelmente há uma relação de subjugamento inapropriado do ânimus da mulher sobre seu ego, originado pela incapacidade de romper com a imagem do pai, de quem não pode se separar, mas é obrigada a aceitar seus desígnios.


Para terminar o texto de hoje, acho oportuno trazer um comentário sobre o trecho que fala da relação entre pais e filhas da psicoterapeuta suiça Verena Kast, em sua obra "Pais e filhas, mães e filhos". O trecho selecionado é justamente sobre a necessidade e a capacidade de conseguir se afastar da imagem paterna que se sobressai no psiquismo da mulher.


"O mais tardar na adolescência, dever-se-ia superar a idealização das figuras dos pais, pois ela significa sempre uma desvalorização da posição de filho". Verena Kast

Verena Kast nos explica que o desligamento que se efetua é geralmente em realação aos pais como pessoas, mas que o mesmo nem sempre ocorre com a imagem de nosos pais refletida em nós. Essa imagem pode tomar vida própria e regular decisões no nível incosciente, tornando-se, portanto, complexos ativados.


“Caso o ir-se-embora sempre tenha sido proibido, ou se nunca foi permitido pensar diferente do pai, então esses aspectos específicos dos complexos são claramente experienciados também, devendo os jovens trabalhar contra isso ou desistir mais uma vez do desligamento”. Verena Kast

Aqui nós trouxemos a música “I Will Always Love You” em duas versões: a original na voz de Dolly Parton e a mais famosa na voz de Whitney Houston. Para finalizar, agora que você já conhece a letra da música em português, já sabe em que circunstâncias foi composta e o significado psicológico profundo; apresento a versão que eu mais gosto, pois tem um valor simbólico que vai além do nível pessoal.


Trata-se da cantora britânica Jessie J. cantando no maior reality show de audições musicais da China, o The Singer, na edição de 2018, no qual ela foi a vencedora. Quero que observe, mesmo em meio aos caracteres chineses, os nomes de Whitney e Dolly vão aparecer na tela. Observe a expressividade da cantora, perceba como as mulheres chinesas na plateia acompanham a música mesmo em inglês.


Lembre-se essa geração de chineses, praticamente não tem irmãos, são em sua grande maioria de filhos únicos, máximo dois. Então, entenda o peso que é a imagem do masculino idealizado para elas. A China é o único grande país do mundo, onde o suicídio é um fenômeno que se apresenta entre as mulheres. E para mim é muito marcante essa interpretação vir de Jessie J, pois essa é aquela que cantou Bang Bang junto com Ariana Grande e Nicki Minaj. Para entender o peso disso, um brasileiro pode comparar ao Bang Bang de Anitta, ou seja, um hino de um tipo de liberdade feminina que precisa chocar e marcar sua presença. Dito tudo isso, aí está o vídeo:



Referências


Kast, Verena. Pais e filhas, mães e filhos: caminhos para a auto-ientidade a partir dos complexos materno e paterno. [Trad.: Milton C. Mota]. São Paulo: Edições Loyola, 1997. (Original em língua alemã: "Vater-Töcher, Mutter-Söhne", 1994).


Parton, Dolly. Dream More: Celebrate the Dreamer in You. Riverhead Books, 2013.

Randy L. Schmidt. Dolly on Dolly: Interviews and Encounters with Dolly Parton (Musicians in Their Own Words), Chicago Review Press, 2018.


Parton, Dolly. Dolly: My Life and Other Unfinished Business. 1994.


Thompson, Gayle. 46 Years Ago: Dolly Parton, Porter Wagoner End Their Musical Partnership. The Boot. Publicado em 19 fev. 2020. [Link]


Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/I_Will_Always_Love_You



Agradecimentos

Entre várias mulheres de fibra que estão até hoje lutando contra essa força masculina sedutora que insiste em governar a vida delas, uma em especial eu quero fazer menção e agradecer pelo seu desprendimento de me ensinar como uma verdadeira mestra do amor. As demais não posso fazer referência pelo dever de sigilo, mas essa eu faço com grande carinho, minha amiga, a psicóloga e terapeuta holística Samara Louyse Medino da Silva (https://www.instagram.com/samaramedino/).


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