As mudanças culturais têm gerado profundo desconforto emocional para as mulheres

Atualizado: 7 de Mai de 2019

O impasse entre a expectativa de ser mãe, muitas vezes sozinha, trazer o sustento para casa, ter sucesso profissional, estudar e ainda ser feliz no amor” e a dura realidade de “sofrer com o adultério, não ser devidamente reconhecida no trabalho” e se sentir sozinha.


Antigas tradições estão caindo por terra. Muita informação, rápidas mudanças. Alguns estão se sentindo cansados, outros desorientados. O que era certeza e dava segurança, já não está mais lá, está obsoleto. Tudo se esvai rapidamente, está difícil pegar algo e conseguir segurar por muito tempo, porque tudo parece líquido. Assim estão nossas relações com as pessoas e com o mundo atualmente [1].


Você sabia que o nosso funcionamento do corpo e da mente foi moldado ao longo dos anos para ter como referência segura a repetição dos padrões comportamentais daqueles que vieram antes de nós? E agora veja: o que nossos pais nos ensinaram, há menos de 20 ou 30 anos, já não está mais servindo para a adequação e êxito no tempo presente. O que faremos? [2]


Em minha curta, porém intensa experiência como terapeuta integrativo; tenho percebido que tudo isso tem afetado muito os adultos na faixa de 30 anos acima, sobretudo, as mulheres. Para elas, têm sido cobrado seriedade e engajamento em novas atividades e compromissos, sem que sejam deixadas de serem cobradas, também, por atividades que já lhe eram pertinentes.


Ser mãe, muitas vezes sozinha. Trazer o sustento para casa, ter sucesso profissional e ainda estudar. Ser feliz no amor, ser o apoio de colegas e parentes, servir de mãe do próprio marido, ajudar os pais idosos. E, além de tudo isso, sofrer com o adultério, o não reconhecimento no trabalho e a ingratidão daqueles que estão próximos.

Em resumo, as mulheres estão sobrecarregadas e estressadas [3].


Podemos falar sobre o abismo em que os homens estão postos, já que muitos querem ser “novos homens”, mas o modelo que eles têm em sua memória é o de uma antiga forma de ser homem, que não está mais funcionando para eles também. Apesar disso, eu quero dar destaque sobre a problemática feminina.





Elas estão num misto de empolgação pelas novas oportunidades, pela liberdade social e até sexual; contudo, estão estressadas e sobrecarregadas. Existe um profundo senso de culpa por não ser mais aquele modelo de mulher que foram suas mães e avós, misturado com a irrefreável vontade de se aventurar no novo[4].


Nesse conflito filhos que eram para ser dádivas, viram peso [5]. Relacionamentos dão certo quando são casuais e ligados à diversão. Mas quando parte para o relacionamento com homens em meio aos compromissos cotidianos, as coisas desandam. E algumas mulheres sentem muito receio de tentar esse tipo de relacionamento com outras mulheres, apesar de algumas sentirem vontade de fazer isso.


E o trabalho e os estudos? Uma fonte de motivação e energia, no entanto, parece não ser conciliável com aquilo que se espera de uma mãe, esposa e dona de casa.


Contudo, tem algo a mais de errado lá, no trabalho: por mais que se faça, nunca está bom. Sempre tem algum elemento masculino, seja um homem ou uma mulher mais dura que passa por cima e acaba lhe usando como serva.


E quando você pensa que deu seu melhor nesses ambientes públicos, ao chegar em casa, todos estão reclamando de sua ausência como se você fosse relapsa. E em contraposição, se der atenção demais aos filhos, que são um tesouro pra você, o chefe e o orientador reclamam.


Meu Deus, quanta confusão e frustração. Será que tem escapatória para as mulheres do século XXI? Tenho estudado o tema, assim como ouço muitos relatos parecidos nas sessões de constelação familiar.


E ao que parece dois são os caminhos viáveis nesse momento de transição:


Primeiro caminho seria se libertar dos modelos antigos e fluir com mais harmonia para o novo.


Segundo caminho seria conhecer o valor que ainda existe nos modelos antigos e deixar de se sentir pressionada para a mudança e viver bem com parte do modelo antigo.


Isso vai de cada mulher, de cada história. Mulheres que vêm de famílias tradicionais e querem quebrar convenções, precisam trilhar mais pelo primeiro caminho. Mulheres que tem um forte apelo pelo interno e pela família, precisam trilhar um pouco mais pelo segundo caminho [6].


Um equilíbrio entre o velho e novo é o mais adequado. Por exemplo, você pode ser uma mulher que se sinta bem sendo parecida com sua avó, mas precisa entender que sua filha talvez não queira mais isso.


E se você for mais adepta aos modelos mais novos, precisa entender que talvez algumas mulheres de sua convivência (como sua mãe, sua irmã, sua cunhada ou sua amiga) ainda estão vivendo uma influência sociopsicológica muito forte, que as vincula aos padrões anteriores. Para momentos de transição, é preciso saber conviver com paradigmas “opostos” ainda bastante ativos ao mesmo tempo.


Certas circunstâncias podem doer, após decidir trilhar um desses caminhos. À medida que for se descobrindo, talvez perceba que aquele emprego, aquela formação profissional ou aquele casamento não faz mais sentido. E isso vai tirar você de sua zona de conforto. E sobre como ganhar mais consciência de como dar esses passos em direção à mudança e o acolhimento de si mesma, que vamos tratar nas próximas postagens.


Não apenas tem escapatória para a mulher do século XXI, como é ela que vai ser o elemento crucial para gerir o que tem porvir. E para isso, precisamos de mães, líderes, matriarcas, governadoras bem resolvidas em si mesmas, quanto ao seu posicionamento social e afetivo.




Agradecimentos


O presente texto foi revisado por Virgínia Lins (virginialins.ads@gmail.com) e recebeu importantes contribuições de Patricia Lima.


Agradeço de forma muito especial a todas as clientes da terapia familiar sistêmica, das quais seus relatos de vida comporam uma síntese dos casos clínicos, sendo possível a percepção do mundo feminino. Garantindo a todas elas o sigilo de suas identidades.



Notas e Referências


[1] Essas são características gerais sobre o mal civilizacional da pós-modernidade. Sobre essa fluidez dos relacionamentos, do amor e sociedade em geral, destacam-se os estudos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Sugerimos a leitura da postagem de Giseli Betsy, no site Obvious: “Zygmunt Bauman: vivemos tempos líquidos, nada é para durar” [Link].


[2] Falamos um pouco sobre esse tema da repetição de padrões de comportamento na postagem “Talvez seja preciso seguir caminhos diferentes de seu pai e sua mãe, sem deixar de honrá-los”, publicado pelo Instituto Onukisan [Link].


[3] a) Sobre esse sentimento de sobrecarga, sugerimos que assista a edição de comemoração ao Dia das Mulheres, em 2018, do Programa Conexão da TV Futura. Apresentado por Karen de Souza foram entrevistadas Alessandra Brito, pesquisadora do IBGE; Andrea Carvalho, líder do Grupo Mulheres do Brasil no Rio de Janeiro; Marina Dutra Xavier Breithaupt, estilista e blogueira; Renata Abreu, coach e especialista em psicologia positiva [Link].


b) Ingrid Fagundez e equipe traz uma excelente reportagem na BBC Brasil, relatando o dia de um casal carioca, aliado a estudos da UFRJ e estatísticas do IBGE, leia em “Mulheres sobrecarregadas e homens desempregados: famílias brasileiras chegam a 2019 ainda em crise” [Link].


c) Sugerimos a leitura do Levantamento do IBGE denominado “Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil” baseado na “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios” [Link].


[4] a) A psicóloga e coach paranaense Daniela Knapp publicou um ensaio muito interessante, inclusive falando do sentimento de culpa, confira em Realmente Mulher [Link].


b) É importante destacar que as mulheres podem está mais vulneráveis pelo o que elas acreditam e sentem do que por incapacidade real de darem conta das tarefas, ao menos o que sugere uma pesquisa que apontou para a predisposição das mulheres em realizar muitas tarefas ao mesmo tempo. A pesquisa foi liderada pela inglesa Keith R Laws (da School of Life and Medical Sciences, University of Hertfordshire), publicado com o título “Are women better than men at multi-tasking?” na BMC Psychology [Link].


[5] Jean Mackenzie trouxe um tema polêmico para o Programa 'Victoria Derbyshire', da TV inglesa BBC: “O tabu das mães que se arrependem de ter tido filhos”. É praticamente proibido dizer essa que é a verdade secreta de algumas mulheres, confira as histórias de três mulheres que confessam esse segredo íntimo [Link].


[6] Para a mulheres que de alguma forma se sentem mais confortáveis em seguir parte daquilo que era o padrão comportamental das mulheres das gerações anteriores, é preciso gerenciar para que as exigências da mundo contemporâneo não as impeça de serem mais dedicadas à casa e à família. Seguem aqui algumas dicas práticas de organização do lar, por Renata Sguissardi no site Sempre{Família} [Link].


[7] Sugestão de Leitura:


a) “Mãe solteira não serve para se relacionar?”, por Carlos Mion [Link].


b) “Ter de escolher entre trabalho e família é fonte de estresse”, em Scientific American (Mente & Cérebro) [Link].


c)“Uma difícil escolha: carreira, família ou ambos?”, por Cecília Troiano em Pais & Filhos do UOL, Blog Vida de Equilibrista [Link].


Sobre o autor


Wagner Soares é terapeuta organizacional e constelador familiar. Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, especialista em Gestão Pública e graduado em Administração e Segurança Pública. Atualmente estuda Psicologia Junguiana Clínica, é aluno especial do Doutorado em Saúde Pública e é servidor público federal. Um de seus enfoques atuais é o que se chama, em Ecologia Humana, de Ciências da Família nas temáticas de Sexualidade, Conjugalidades e Cultura.

Site: www.zoeintegrativa.com/wagnersoaresdelima | Instagram: @wagnersoaresdelima

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